Para Renan, governo Temer já foi: “Maia pode ser uma saída”

Em entrevista exclusiva para a Folha de São Paulo, nesta segunda-feira, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que “ninguém aguenta mais o governo”. Para ele, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pode ser possível condutor da “inevitável travessia”.

O senador vem batendo de frente com o presidente Michel Temer e é um dos principais críticos da reforma trabalhista.

Em sua primeira longa entrevista após deixar a liderança da bancada do PMDB no Senado, Renan Calheiros diz “querem tirar de qualquer forma o piloto porque a turbulência está cada vez mais insuportável, ninguém aguenta mais”.

Alvo de mais de dez investigações e uma denúncia na Lava Jato, Renan Calheiros também falou sobre as acusações que enfrenta na entrevista à Folha:

“Apesar de suposições e o que dizem as delações a meu respeito, sigo absolutamente tranquilo e prestando todas as informações à Justiça. A primeira [investigação] já foi arquivada e as demais certamente terão o mesmo desfecho. Não há nenhuma prova contra mim. Eu nunca recebi caixa dois nem propina. Nesses anos em que estive no Parlamento sempre resisti a isso.

Veja aqui a entrevista de Renan Calheiros à Folha:

‘O governo Temer já foi; Maia pode ser uma saída’, afirma Renan Calheiros

Líder da bancada do PMDB no Senado até o final de junho, Renan Calheiros (AL), 61, diz que “ninguém aguenta mais o governo” e aponta o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como possível condutor da “inevitável travessia”.

Apesar de ser do partido do presidente Michel Temer, o senador bate de frente com o correligionário e é um dos principais críticos da reforma trabalhista.

“Querem tirar de qualquer forma o piloto porque a turbulência está cada vez mais insuportável, ninguém aguenta mais”, afirma o senador, em sua primeira longa entrevista após deixar o comando da bancada.

Renan é alvo de mais de dez investigações e uma denúncia na Lava Jato, além de ter renunciado em 2007 ao comando do Senado sob a suspeita de ter despesas privadas bancadas pela empreiteira Mendes Júnior.

Em uma das primeira críticas a Temer, em abril, ele comparou a gestão peemedebista à seleção do Dunga.

À Folha disse que gostaria de se retratar: “Dunga foi um vencedor, não é oportunista, é sério, foi tetracampeão e, como treinador, conquistou vários títulos. Dunga não merecia, sinceramente, essa comparação”.

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Folha – Governistas dizem que as suas críticas ao Planalto se dão por sua situação eleitoral difícil em Alagoas. O senhor vai ser candidato ao Senado em 2018?

Renan Calheiros – Deverei sim disputar mais um mandato de senador. Não acredite nessas notícias plantadas de que tenho dificuldades para reeleição. Isso é o que o governo gostaria que acontecesse. Mas as pesquisas, as verdadeiras, mostram o contrário.

Especula-se que o sr. articula aliança para apoiar possível candidatura de Lula em 2018. O sr. vai apoiá-lo? Há inclusive a possibilidade de ele ser preso.

Na política não se dá o direito de descartar ninguém que partilha do mesmo objetivo. Eu acompanho essas coisas pelo noticiário e já foi mais fácil condenar o Lula. Não vai ser tão fácil como alguns esperavam. Para que se possa olhar o cenário futuro com mais nitidez, precisamos saber quem será candidato, quem estará na presidência da República e, falando do quadro atual, por mais pavoroso que seja, quem estará solto. Vivemos, como disse o ministro [do STF Luís Roberto] Barroso, tempos fora da curva.

O sr. não teme ser preso?

Não. Eu fui citado por delatores presos que sequer me conheciam. Não há uma prova contra mim. Em função do cargo que eu representava, a chefia de um Poder [o Legislativo], circunstancialmente passei a ser multi-investigado. Eu não temo nada. Medo só atrapalha nessas horas.

Por que o sr. critica o governo dizendo que Temer se deixou levar pelo mercado?

Foi o maior equívoco defender uma agenda unicamente do mercado. O presidente, pela circunstância, foi colocado na cadeira de piloto de um avião sem plano de voo, sem saber de onde estava vindo nem para onde estava indo. Lá atrás os passageiros estavam aguardando sinais do comandante. Ele disse: ‘Fiquem calmos, temos um rumo, devemos chamá-lo de ponte para o futuro e vamos rapidamente, sem sobressaltos, chegar lá.’ Num primeiro momento, foi alívio e alguma esperança. Aí acontece um desastre: o avião entra numa tempestade e um raio fora do radar atinge as duas asas. O avião fica sem asas e sem turbina, o comandante passa a navegar por instrumentos e quem tenta alertá-lo passa a ser considerado inconveniente. Ele continua com a mão no manche, pisa cada vez mais fundo, e os passageiros começam a perceber que o comandante não tem noção do que acontece fora da cabine e o que querem fazer é tirar de qualquer forma o piloto porque a turbulência está cada vez mais insuportável. Ninguém aguenta mais.

Por isso esse sentimento de que o governo já foi. Não devemos descartar o Rodrigo Maia como alternativa constitucional e como primeiro e decisivo passo para essa inevitável travessia que nós deveremos ter de fazer.

O nome de Rodrigo Maia tem aparecido como sucessor de Temer. O sr. o apoia para essa transição?

Em regra geral, independentemente de partidos, quase todos apoiam uma saída. Porque a turbulência está insuportável. O Rodrigo parece um bom político. Tem sido fundamental nos últimos anos pelo equilíbrio e responsabilidade que demonstra. Acho que ele não pode ser descartado. Talvez nós tenhamos que contar com sua participação nessa travessia.

Após ameaças de que seria destituído do cargo, o senhor deixou a liderança do partido. O que pesou para isso?

O PMDB é o maior partido do Brasil, mas tem se fragilizado com o estilo de Temer. Às vezes o presidente lida com o partido como se fosse uma imobiliária, como se pudesse ter dono. Eu jamais seria um líder de aluguel. Nunca tive e nunca terei senhorio. Por isso resolvi sair.

O senhor já sugeriu a renúncia de Temer, mas ele não dá sinais de que fará isso.

É preciso construir uma saída. O problema de Temer é que ele sempre foi a ponta mais vistosa, mais diplomática de um iceberg. As investigações implodiram a parte que ficava abaixo da linha d’água. Na hora que a parte debaixo se desintegra, a de cima naufraga. O governo nasceu com uma razão questionável do ponto de vista político, que era reanimar a economia e estabilizar a política. Mas a política nunca esteve tão caótica e a economia continua desfalecendo. O governo parece um filme de terror. As pessoas foram ver um entretenimento e estão saindo desesperadas com um filme pavoroso. Foram ver o Batman e o Charada dominou a cena.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/07/1899806-o-governo-temer-ja-foi-maia-pode-ser-uma-saida-afirma-renan-calheiros.shtml

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Victor Spinelli

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