Adaptação às mudanças climáticas é urgente, segundo IPCC

Adaptação às mudanças climáticas é urgente, segundo IPCC

As mudanças climáticas previstas já estão acontecendo. Esta é a principal conclusão e o alerta do último Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O Sumário para Formuladores de Políticas foi apresentado na última semana, no Rio de Janeiro.

Os fenômenos climáticos extremos, esperados para os próximos 20 ou 30 anos, foram registrados ao redor do mundo, nos últimos meses. Inundações e secas intensas estão demonstrando que as variações do clima exigem medidas de adaptação urgentes. No Brasil, um programa de agricultura de subsistência, para o melhoramento de plantas dos ecossistemas da Amazônia e Mata Atlântica, foi implantado no Nordeste. O projeto prevê a criação de corredores biológicos, para a conservação das plantas nativas.
O pesquisador José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foi o único brasileiro a participar da redação do sumário, entre os 1719 autores, representantes de vários países do mundo . Segundo ele, o Brasil está trabalhando para reduzir a vulnerabilidade à exposição ao clima, ainda que de forma lenta. Mas, é preciso medidas permanentes, que solucionem de forma definitiva os problemas.

“A adaptação às mudanças climáticas não é algo que se resolve agora, sobre um determinado problema climático que afeta uma população, e depois, no próximo ano, se avalia o que pode ser feito caso o problema volte a surgir” salientou Marengo.

O relatório ressalta que as projeções climáticas realizadas após o AR4 preveem aumento de temperatura de 1,7 ºC a 6,7 ºC na América do Sul e entre 1,6 ºC a 4 ºC na América Central, até 2100.

Já as chuvas devem diminuir em 22% no Nordeste do Brasil e entre 22% a 7% na América Central, também em 2100. Aumentarão os períodos de seca na região tropical da América do Sul e leste dos Andes, e a frequência de dias e noites quentes na maioria das regiões da América do Sul.

Alguns possíveis impactos dessas alterações climáticas nas duas regiões seriam a extinção de habitats e de espécies significativas, principalmente na região tropical da América Latina; substituição de florestas tropicais por savanas e vegetação semiárida por árida; aumento do número de pessoas em situação de estresse hídrico (com falta de água); e aumento de pragas em culturas agrícolas e de doenças, como a dengue e malária nas populações.

“Os maiores impactos das mudanças climáticas na América do Sul deverão ser na segurança hídrica e alimentar e na saúde da população” avaliou Marengo.

Mudanças no uso da terra

Segundo os pesquisadores autores do relatório, as mudanças no uso da terra– como o desmatamento e a degradação ambiental – contribuem significativamente para a piora ambiental e deverão agravar os impactos negativos das alterações climáticas.

Os altos níveis de desmatamento e degradação do solo observados na maioria dos países da região são atribuídos, principalmente, à expansão da agricultura extensiva e intensiva para atender a crescente demanda mundial por alimentos.

Apesar das taxas de desmatamento na Amazônia terem diminuído desde 2004 para uma média de 4.656 quilômetros quadrados em 2012, regiões como o Cerrado brasileiro ainda apresentam altos índices de desmatamento, com taxas médias de 14.179 quilômetros quadrados por ano no período de 2002 a 2008, aponta o relatório.

As duas atividades que tradicionalmente dominam a expansão agropecuária da América do Sul são a soja e a carne, no Brasil, e algumas das áreas mais afetadas pela expansão da fronteira agrícola no país estão nas bordas da Floresta Amazônica, no Brasil, Colômbia, Equador, Peru e nos Andes tropicais.

Foco em adaptação

Uma das mudanças do Quinto Relatório do IPCC em relação ao AR4 é o foco em adaptação e mitigação.

Para cada projeção de mudanças climáticas para diversas partes do mundo feita no relatório há indicações de ações de adaptação e mitigação, destacou Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP.

“O relatório deixa muito claro que o problema das mudanças climáticas é irreversível e, portanto, é necessário adotar e implementar medidas adaptativas” disse Buckeridge.

Diminuição da pobreza

De acordo com os pesquisadores autores do relatório, a capacidade de adaptação às mudanças climáticas dos países das Américas do Sul e Central nos últimos anos melhorou, por causa, principalmente da redução da pobreza.

Ainda existe um elevado e persistente nível de pobreza e de desigualdade socioeconômica na maioria dos países das duas regiões, que resulta em dificuldades de acesso à água potável, saneamento e habitação adequada, especialmente para os grupos mais vulneráveis.

Esse conjunto de fatores contribui para a baixa capacidade de adaptação às mudanças climáticas dessas populações, indica o relatório. “As mudanças climáticas deverão afetar, em maior parte, as populações mais pobres e situadas nas regiões mais tropicais do planeta”, disse Marengo.

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